sexta-feira, 19 de abril de 2013

Criação literária

Hoje não publico um texto de meu nome. Ao invés, ponho à disposição de todos um apontamento de Francisco de Pan. Nasceu no século XIX mas já morreu no seguinte.
Muito influenciado pelas ideias modernistas e, em especial, de Fernando Pessoa, quis sempre com a sua escrita denunciar o que estava mal mas, principalmente, dar a sua visão não só do que se passava à sua volta mas do que é a vida. Fernando Pessoa não foi só sua influencia, foi mais que isso: Francisco viu naquele que muitos consideram o maior autor português de todos os tempos um mestre, tal como Alberto Caeiro ou Álvaro de Campos. Presença notória dessa admiração é a forma como se dirige a Pessoa na sua obra: «Mestre», sem nunca o ter conhecido. 
O excerto que aqui publico é duma obra que reflete a intervenção ideológica de Pessoa na sua literatura. Tal como o Livro do Desassossego, é como que uma compilação de intervenções soltas, de trechos, de reflexões profundas sobre aquilo que lhe vinha à mente para escrever. O Interlúdio dos Desassossegados - Memórias duma Parábola Crescente difere, no entanto, em várias coisas da obra atribuída a Bernardo Soares, desde o estilo de escrita ao tom ainda mais sarcástico que inunda muitos dos «trechos». 
Muito raro é, no entanto, o conhecimento deste autor e da sua obra, pois sempre preferiu por a sua obra na sombra, nunca quis ter um possível crédito ou fama que a obra poderia dar-lhe para não se quietar no mundo real como Pessoa quietou. 
Este excerto refere-se à criação poética e literária, vista por Francisco de Pan.



Elevada literatura por Francisco de Pan


"Da ignorância nasce a literatura mais bela. É dessa abençoada bem-aventurança que brota a revolta e a fúria e a arte de bem escrever.
A concentração de belos poemas e grandes autores num intervalo de tempo é diretamente proporcional ao abismo onde os idiotas do mesmo tempo se abalroam e amontoam num tumulto inquieto e sufocante.
É essa a raiz da erudita escrita: é para encher mentes vazias mudar cabeças transviadas que esse nosso precioso serve.
É, por tudo isto, necessária constantemente uma generosa quantidade de palermas por milhão de habitantes – gente que nunca irá compreender a tua poesia, Mestre, quiçá nem a que aqui se vai revelando (se é que se lhe pode chamar isso) – aqui pela nossa terra.
Oh, mas que alegria! Desse dado estatístico seremos sempre abastados e haverá sempre sua fartura por Ocidentais Praias Lusitanas. E ainda irão os da coroa receber com muita felicidade, comoção, orgulho e patriotismo a medalha que nos hão de dar por tamanha façanha!
Que sede terão eles de tão alto quinto império!"



Francisco de Pan, Interlúdio dos Desassossegados - Memórias duma Parábola Crescente (1941)

João Simões, 12ºC


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